links amarelos #5
minha seleção de janeiro: mais Brasil no Oscar, skate, música eletrônica, casas de direita, videogame e museus
Em tempos ideias, eu (que já estou com a mochila térmica nas costas pro Carnaval), me sento com um lanchinho gostoso em mãos e passo horas em vadiagem digital. No final, me levanto com o bolso cheio de artigos, livros, filmes, músicas e outras coisas ainda sem lugar na taxonomia digital vigente. Os links amarelos são o creme de la creme dessa vadiagem.
E as ondas amarelas são a versão em áudio da nossa conversa. Isso mesmo, agora você também pode ouvir aos links amarelos!
Nada muda por aqui, mas todos as edições da newsletter agora contam com uma versão em áudio com um bônus no final. Ouça esse episódio no aplicativo do Substack ou no Spotify.


E iniciando oficialmente a nossa programação de 2026:
no mês de janeiro temos: Oscars que eu daria para o Brasil ✦ skate ✦ música eletrônica ✦ casas lava-jato ✦ amor gostoso nos jogos ✦ IA nos museus ✦ melhores filmes de 2025
primeiramente: aqui é Brasil, p****!
É indicação que não acaba mais para o cinema brasileiro. Eu achei que Ainda Estou Aqui seria seguido de um hiato tão grande nas premiações quanto o que o precedeu, mas é como diz o ditado: “se Deus não é brasileiro, por que ser brasileiro é tão legal?”. Com esse espírito eu ofereço uma pequena lista de categorias do Oscar que o Brasil ganharia se a premiação fosse para nações.
Prêmio de Melhor Elenco: Brasil
Pra quem não sabe, essa é a primeira edição do Oscar com a categoria de Melhor Elenco, que já existia em várias outras premiações. Uma categoria dedicada ao conjunto de atores numa obra, na vibe e no talento do grupo de participantes. E se você fala grupo, você fala do Brasil. Ninguém junta gente como a gente junta, essa categoria é nossa!
E nessa issue essa categoria vai ser especificamente de um grupo de skatistas do alto sertão do Alagoas que produziram e protagonizaram o vídeo Princesa do Sertão.




Prêmio de Melhor Trilha Sonora: Brasil
A música tocando nesse vídeo chama “De alegria raiou o dia” do Carlos Dafé e poderia mostrar que o prêmio de trilha sonora também é nosso. Mas eu tenho um exemplo que já é em si uma premiação internacional.
O pessoal da Resident Advisor, uma mídia especializada em tudo de música eletrônica, rave e cultura de DJs, preparou uma lista das maiores faixas, gravações e mixes de eletrônica do primeiro quarto do Século 21.
E quem está lá? Ao lado de Daft Punk e Arca e FKA Twigs? A Tati Quebra Barraco.
Você pode ouvir a playlist completa das 100 gravações que definiram a música eletrônica entre 2000 e 2025 no Spotify ou no YouTube. E me desculpo por lembrar a você que já se passou um quarto do século, vai dar tudo certo, eu prometo.
Prêmio de Melhor Roteiro Original: Brasil
É facílimo escolher quem indicar para essa categoria. Não faz muito tempo que o mundo abraçou a obra de Machado de Assis lá fora por conta de uma embaixadora estadunidense fofíssima. Ele já é o queridinho da academia, a campanha vai ser mamata, quer ver só?
Quando terminei de ler Memórias Póstumas encontrei na cronologia de vida dele, um apêndice na edição que eu escolhi, uma entrada específica sobre Machado de Assis ser tipógrafo. Eu, como alguém que tinha certeza que seria designer tipográfica até ter o primeiro dia de aula da faculdade, fiquei completamente extasiada. Como assim Machado era tipógrafo? Era designer?
Realmente, como assim? Não é isso que tipógrafo quer dizer no século de Machado, o homem não desenhou nenhuma fonte. Mas isso quer sim dizer que ele sabia muito sobre tipografia, era imprescindível para o trabalho de organizar os tipos e as produções dos livros. E a melhor parte é que esses conhecimentos tão por aí entranhados na escrita dele.
Apesar de ter deixado o ambiente da oficina de impressão, a tipografia continuou a fazer parte de sua carreira. Sabendo como funcionam os processos em que os manuscritos tornam-se impressões, tinha cuidado com o uso de palavras que ele julgava poder confundir os compositores, e usava de recursos da composição tipográfica que apenas uma pessoa com conhecimento próprio de tipografia poderia utilizar em suas obras. Ele chegou a escrever, por exemplo: “tenho sempre medo quando escrevo a palavra Parlamento. (…) Sistema Parlamentar, composto às pressas, pode ficar um sistema para lamentar”.
Leia mais sobre o melhor roteirista, escritor, tipógrafo, político, zombeteiro e negro do Brasil nesse texto do Cadu Carvalho da Tipo Aquilo: Machado de Assis, escritor e tipógrafo.
o Brasil nunca erra… só as vezes na arquitetura
Mais e mais vezes eu tenho passado por avenidas grandes aqui de Belo Horizonte e sendo surpreendida negativamente com um prédio estranho, quadrado e francamente assustador. Eu já falei disso em uma issue passada (#3) e vou me repetir no futuro. Quero que pareça que isso me incomoda muito, porque incomoda mesmo. Incomoda porque “você pode desistir de um livro ruim, você pode evitar ouvir uma música ruim, mas você não pode esquivar o olhar do prédio ridículo bem em frente a sua casa” — Renzo Piano.
Muita gente já se conformou com o fato de que é assim que as casas vão se parecer agora — os apartamentos então nem se fala, já largamos de mão completamente — mas eu não me conformo. É simplório demais pra mim dizer que as pessoas que moram nessas casas, e todos nós temos uma imagem clara de quem são, só não tem “bom gosto”. E o Fred Costa concorda comigo, por isso ele explorou mais a fundo a história das casas quadradas nesse texto.
Esse ganho de eficiência de projeto também oferece ganhos na construção, mas só isso não dá conta de esclarecer os motivos de uma mudança cultural na percepção que as pessoas têm do luxo na arquitetura.
Muito provavelmente você já tem seu próprio nome pra essas construções, ou prefere simplesmente rosnar quando passa em frente a uma delas na rua — o que é super compreensível. Mas lhe ofereço um substituto cunhado nesse texto: a Casa Lava-Jato.
Não por acaso, muitas das recentes operações policiais que tentaram colocar ordem na política nacional aconteceram em condomínios fechados com policiais batendo em portas, muito provavelmente, maiores do que o comum.
mas também né, tá difícil pra todo mundo
No momento que escrevo esse texto, a minha experiência mais recente de terror arquitetônico residencial na verdade nem foi com uma casa brasileira. Ela aconteceu enquanto eu assistia Sentimental Value (2025).
A casa onde o filme se passa é uma personagem importantíssima do enredo e no meio da confusão do que acontece com uma casa quando a principal moradora morre, a casa acaba sendo vendida. Em nenhuma das várias curvas que o roteiro toma eu pensei que precisava me preocupar com alguém colocar chão de alvenaria na casa mais linda que já vi no cinema, mas pelo visto sempre vai ter alguém ignorando o valor sentimental de uma construção.


porque todo mundo anda errando com as ferramentas
No texto do Fred sobre arquitetura ele também comenta sobre a influencia dos softwares digitais na arquitetura. Em termos simples: os softwares tornaram mais fácil desenhar prédios retos e chapados que qualquer outra coisa. E isso é óbvio, um exercício talvez simplório demais é você aí na sua casa pegar um lápis e um papel e tentar desenhar um círculo. Depois, tente pegar seu mouse — ou pior ainda, o touchpad do seu notebook — e desenhar o mesmo círculo. É, pois é.
nos jogos
Isso tudo me lembrou de um artigo do Dave Rupert entitulado why don’t video games take sex seriously? (que discute uma matéria homônima). O artigo referencia alguém que eu nunca achei que saberia o nome: um desenvolvedor de jogos de simulador de sexo homoerótico, Robert Yang. Eu vou deixar o link aqui porque eu sei que você tá curioso, pode clicar, ninguém vai ficar sabendo. Na matéria o Yang fala sobre como é difícil fazer jogos sobre intimidade porque nenhuma mecânica de desenvolvimento é feita pra isso.
Corpos em jogos não são macios. Eles são feitos pra correr e atirar, não pra segurar as mãos ou pra se beijarem. Eu poderia fazer um jogo de tiro em cinco minutos, mas se você quiser que eu faça um jogo de abraço, isso é bem difícil. Desenhar intimidade, proximidade, simular objetos se tocando lentamente — esses são os grandes desafios do desenvolvimento de jogos porque tão pouca atenção foi dada pra isso.
Foi com esse texto que eu finalmente entendi o choque interno que foi assistir aquela cena em The Last Of Us 2.
nos meus queridos museus
Em um sábado desse mês eu, e o motivo do sol nascer duas vezes no meu mundo, decidimos fazer uma caminhada de museus. A gente saiu de casa 10 da manhã e voltamos pra casa 5 da tarde, passando por cinco museus diferentes. Se isso parece tedioso, relaxa, museologia é um dos meus interesses especiais e eu não ficaria tão feliz quanto fiquei nesse rolê se fosse num rodízio de pizza.
Em dois dos museus que passamos, me diverti muito até que minha pressão baixou no último minuto pela mesma razão. Já te conto qual foi.
A primeira exposição foi a do “O mestre da luz e da sombra”, o pintor Rembrandt, na Casa Fiat de Cultura. Foi a primeira vez que tive contato com as obras dele de maneira tão focada e a gente precisou andar pela exposição inteirinha e mais uma pequena vitrine expondo as ferramentas dele pra entender qual exatamente era a técnica aplicada no seu trabalho. Depois de entender, falamos três palavrões consecutivos, por que não é possível que alguém seja tão bom assim. É, o Rembrandt é um maestro.


Pela tarde passamos em outra exposição incrível: “Além da Fantasia” do Yoshitaka Amano no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB). Além de todo o material que o Yoshitaka fez para os animes e outras mídias que ele atuou, tinham vários exemplares das pinturas que ele fez com aerosol de pintar carro. As pinturas são de um brilho e reluzem de um jeito que infelizmente foto nenhuma vai te fazer entender. Mas a exposição ainda está lá e não é sempre que eu posso dizer que uma exposição é pra qualquer um, essa é, não perca.


Em ambas as exposições eu estava pronta pra sair e marcar e ⭐⭐⭐⭐⭐ no meu Notion — galera, quando é que alguém vai fazer um letterboxd de museu ein? E em ambas, o que deveria ser um final perfeito, foi estragado por uma sala extra cheia de? Isso mesmo, Inteligência Artificial.
Bonecos retirados de pinturas de Rembrandt e animados contra um fundo xoxo e opaco, num movimento mínguo e repetitivo. E depois grafismos do Yoshitaka rodando em disparate em direção ao um ralo metafórico no centro da sala por motivo nenhum. Ambos massacres aconteceram com o recurso de projetar algo em 360º numa sala, o equivalente a Casa Lava-Jato no mundo da expografia.
Do meu ponto de vista é degradante pegar obras que encheram salas e mais salas e olhos e mais olhos ao ponto de ser difícil conceber o trabalho imprimido para criá-las e então transformá-las em um vídeo fantoche e previsível. É o completo oposto da conduta que eu espero de um corpo curatorial para com um artista.
A gente teve que falar alguns anos atrás sobre colocar cláusulas nos contratos de atores e atrizes para que as imagens deles não fossem usadas por IA para outros trabalhos. Talvez seja hora de falar sobre isso em museus também.
Mas é que as pessoas não tem inteligência suficiente, no modo geral, para entender que existe uma entrelinha artística para um artista como um João Gilberto, ou como um Paul McCartney, que é intransponível. Então, quando você altera a obra original dele, ele escuta e fala: “mas não foi isso que eu fiz”. Não interessa se é pior ou melhor. “A minha obra está alterada”. — Moogie Canazio no episódio “Os Discos” do Rádio Novelo Apresenta
e digo mais,
O melhor vídeo que você pode assistir esse mês, com fones de ouvido, se chama THE 25 BEST FILMS OF 2025: A Video Countdown. O melhor vídeo que você poderia assistir em janeiro do ano passado se chamava THE 25 BEST FILMS OF 2024: A Video Countdown. E assim vai até 2018. Assista todos esse mês e esteja mais preparado para janeiro do ano que vem, tá bom?
E digo ainda outra coisa: o Carnaval tá vindo aí e não seria tão bom ser brasileiro se não fosse o carnaval. Não encare telas fevereiro inteiro, vá pra rua! Eu te encontro lá.




Adorei os 🟨 links 🟨 todos!